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set 10, 2020
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Governo zera alíquota de importação para o arroz

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O governo federal decidiu zerar a alíquota de importação para o arroz, como uma tentativa de baixar o preço do cereal. Presente nas refeições do brasileiro, o alimento foi um dos que tiveram alta mais expressiva no último mês e pesou na inflação oficial do País, divulgada ontem. Apesar da medida, o consumidor pode demorar entre 15 dias e um mês para verificar alguma diminuição de preço nas prateleiras dos supermercados, de acordo com especialistas.

O Gecex (Comitê-Executivo de Gestão) da Camex (Câmara de Comércio Exterior), do Ministério da Economia, estabeleceu a isenção do imposto do arroz em casca e beneficiado – aquele que já passou pelo processo de retirada da casca e do farelo para a obtenção do arroz branco para o consumo – até 31 de dezembro deste ano. A decisão foi tomada em reunião proposta pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Conforme mostrado ontem pelo Diário, desde janeiro, preço do produto já subiu 26,04% nos supermercados do Grande ABC, sendo que o pacote de cinco quilos pode ser encontrado na casa dos R$ 20.

A redução temporária da alíquota da importação está restrita à quota de 400 mil toneladas, incidente nos produtos classificados com casca ou semibranqueado e branqueado não parboilizado dentro da NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul). Para países que integram o Mercosul – Argentina, Uruguai e Paraguai – a taxa já é isenta, mas para os demais é de 10% para arroz em casca e de 12% para o grão beneficiado. A ideia é aumentar a oferta do produto.

Coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero afirmou que a medida vai na direção correta e é “melhor do que ficar apelando para o patriotismo”, mas se a redução se efetivar, pode demorar até 15 dias para o consumidor sentir alguma queda.

Já o coordenador do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura) da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Jefferson José da Conceição, avalia que o reflexo deva demorar cerca de um mês. “Acredito que essa seja uma medida de médio prazo”, afirmou. “E não é seguro dizer que o preço vai ser reduzido na mesma proporção da alíquota (10% a 12%) para o consumidor. Pode ser que a cadeia produtiva se aproprie de uma parte, por isso o ideal é que o governo converse com os grandes produtores e fornecedores e anuncie medidas complementares, como reduzir outros custos, a exemplo da energia elétrica”, acrescentou.

INFLAÇÃO

Conforme divulgado ontem pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), inflação oficial do Brasil, subiu 0,24% em agosto, o maior resultado para o mês desde 2016.

Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, seis tiveram alta. A maior variação veio dos transportes (0,82%), impulsionada pelo aumento do preço da gasolina, que subiu 3,22%. Na sequência veio o grupo de alimentos e bebidas, que registrou alta de 0,78%, estimulada pelo arroz (3,08%), tomate (12,98%) e leite (4,84%).

A situação acaba sendo mais prejudicial para as famílias de menor renda e as que dependem do pagamento do auxílio emergencial de R$ 600, que, a partir deste mês, é reduzido pela metade. Caso de Ailse Maria da Silva, 55 anos, moradora de Santo André, que trabalhava na Chocolates Pan, em São Caetano, e está na lista dos 100 ex-funcionários que aguardam o pagamento das verbas rescisórias que deixaram de ser pagas em novembro do ano passado. “É uma situação muito difícil. Eu estou contando com a doação do arroz e de feijão da igreja que eu frequento e, quando vou ao mercado, compro outras coisas, como mistura e margarina”, disse. O filho dela, que trabalhava como manobrista de restaurante, perdeu o emprego na pandemia.

“É importante destacar que a pandemia alterou a estrutura familiar. Muitos itens que compunham a inflação, como a passagem aérea, diminuíram, mas há pouco peso para as famílias. Em compensação, há mais pessoas comendo em casa”, lembrou Conceição.

Apesar da alta, a inflação desacelerou na comparação com julho, quando chegou a 0,36%. “Outros itens, como mensalidade escolar, foram sendo reduzidos e acabaram compensando a queda dos alimentos no índice”, disse Balistiero.

Abras diz para consumidor trocar cereal por macarrão

O presidente da Abras (Associação Brasileira de Supermercado), João Sanzovo Neto, afirmou ontem que o setor deve promover uma campanha para estimular o consumidor a substituir o arroz pelo macarrão. Segundo ele, não há prazo para que o preço do produto seja reduzido no varejo.

“Vamos promover o consumo de massa, macarrão, que é o substituto do arroz. E vamos orientar o consumidor que não estoque (arroz)”, disse ele, depois de se reunir com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em Brasília, para falar sobre o aumento dos produtos da cesta básica. Questionado sobre a fala de Bolsonaro, que chegou a pedir “patriotismo” aos donos de supermercado e para que trabalhem com lucro “próximo de zero”, Sanzovo Neto disse ter relatado ao presidente que o setor “já está fazendo isso e que os supermercados não são vilões”.

A Apas (Associação Paulista de Supermercados) afirmou que entende que a retirada da taxa de importação do arroz não reduzirá os preços para patamares do início do ano, porém, pode atenuar o aumento. “A recomendação é que os supermercados negociem com seus fornecedores e comprem somente a quantidade necessária para a reposição, de modo que não estrangulem o visível gargalo de produção de alguns itens pertencentes à cesta básica. A indisponibilidade e o consequente encarecimento de alguns produtos se devem à valorização do dólar frente ao real que motivou a exportação recorde muitos produtos, a quebra de safra e o crescimento da demanda interna impulsionada pela Covid-19, que trouxe maior consumo de produtos básicos”, informou.

O Ministério da Justiça deu cinco dias para produtores e supermercados explicarem o aumento no preço do arroz.

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